domingo, 10 de janeiro de 2010

A construção do conhecimento e utilização cerebral:10% ou 100%


Não é de agora que se tenta mensurar o nível de inteligência do homem, utilizando-se para isto vários critérios e estratégias, que, com o passar do tempo e os progressos da ciência, tornam-se obsoletos e ultrapassados, perdendo portanto, sua consistência.

A título de ilustração, podemos citar o critério comparativo morfológico, estabelecido no século XVI, quando foi dissecado o cérebro do grande matemático da época, Gauss, e, a partir de então, eram consideradas inteligentes, pessoas com cérebros parecidos anatomicamente com o do eminente sábio. Só que isto gerou um pequeno problema: só se saberia quem era inteligente após a morte.

Outro exemplo bem mais recente é o famoso teste de Q.I., elaborado por Alfred Binet em 1900, que estabelecia escores de desempenho, onde pessoas que pontuavam abaixo de 70 eram consideradas infra dotados, acima de 130 situavam-se os superdotados e, na faixa intermediária, os ditos normais. Logo começou a observar-se infra dotados superando expectativas e superdotados sendo considerados portadores de necessidades especiais.

Raul Seixas, grande expoente da música brasileira nos anos 70/80, inspirado, não se sabe por qual fonte, afirmou ser o homem “ridículo”, “limitado”, por só usar 10% do seu cérebro, afirmação esta que muita gente ainda considera como uma grande verdade científica, quando na verdade, não passa de uma grande “bola fora” do nosso “maluco beleza”.

Sabe-se, à luz da neurociência, que na construção das praxias (ações) e gnosias (conhecimentos teóricos), todo e encéfalo está diretamente envolvido, em suas três unidades funcionais integradas.

A primeira unidade, o tronco encefálico, responsável pela nossa atitude de alerta, vigilância, equilíbrio, recebe os estímulos do meio ambiente, captados pelos nossos sentidos, enviando-os então à 2ª área funcional, ou seja o centro de associação, formado pelos lobos temporal, parietal e occipital que transformam estes estímulos em percepções, atribuindo-lhes significados. Essas percepções funcionam como peças de um grande quebra-cabeça, com infinitas possibilidades de formações. Em seguida, essas primeiras propostas são enviadas à área frontal do cérebro, chamada de 3ª área funcional, responsável, em última instância, pelo planejamento e avaliação dessas propostas comportamentais, dando-lhes uma roupagem final, para que sejam executadas. Não esquecendo que, nestes trajetos entre as unidades funcionais, existe a participação do sistema límbico, controlador e hospedeiro das nossas emoções, influindo, portanto, diretamente no produto final de todo esse processo.

Como se pode observar, existe o envolvimento de toda a estrutura encefálica (ou de nossa “cabeça animal”), na construção do comportamento humano, até porque, qualquer área lesionada do nosso cérebro, implicará diretamente, via de regra, na nossa performance motora ou cognitiva, dependendo da região atingida e da intensidade da lesão. Além do mais, seria um vacilo da natureza colocar-nos uma carga encefálica de aproximadamente 1.500g, para utilizarmos apenas 150g, não é verdade?

Então, assim como todo artista genial tem direito a algumas “pisadinhas na bola”, com o nosso Raul Seixas não foi diferente, o que não tira o seu mérito como um dos melhores compositores e intérpretes do nosso cancioneiro popular.

Teresina/PI, janeiro de 2010

* Emanoel Rio Lima é Educador Físico e Psicopedagogo

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