sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Obama: Nobel da Paz para a guerra


Em 1974, o polêmico Secretário de Governo norte-americano Henry Kissinger foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz por ter firmado acordo encerrando a guerra do Vietnam. Na época a comunidade mundial protestou contra a escolha, pois o próprio secretário ianque havia iniciado a guerra autorizando bombardeios no Camboja.

Após 25 anos, o mesmo Prêmio Nobel da Paz mais uma vez traz sentimentos contraditórios em todo o mundo por ter sido entregue ao Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

As principais críticas à escolha de Obama decorrem do fato de o mesmo manter as políticas de intervenção e invasão ao Iraque e ao Afeganistão, inclusive enviando um reforço militar a este último país.

Além disso, apesar de ter sinalizado durante a campanha eleitoral que poderia abrandar as restrições impostas a Cuba, mudou o discurso e postergou qualquer negociação sobre o desumano embargo que agoniza a ilha.

Até mesmo setores comerciais americanos pressionam pelo fim do embargo, pois a ilha apresenta grande potencial de destino às exportações de grãos, além do amplo atrativo turístico. Essas pressões tornaram-se mais fortes após o advento da grave crise financeira mundial que teve seu epicentro e maior repercussão nos EUA. Qualquer medida de auxílio ao aquecimento econômico do país mostra-se louvável e relevante, mesmo que envolva Cuba. Ainda sobre Cuba, Obama também não se manifestou sobre a situação da base militar de Guantanamo, onde prisioneiros de guerra são mantidos sem qualquer comunicação ou direito de defesa.

Os critérios de concessão do Prêmio Nobel superaram todos esses aspectos belicistas e desumanos pelo simples fato de Obama ter manifestado intenções diplomáticas quanto à política externa em outras regiões do mundo, tais como Ásia e América Latina.

Obama vive o primeiro ano de sua administração. Apenas iniciou a implantação do seu plano de governo em nível interno e externo e isso estranhamente já bastou para que fosse escolhido como referência mundial em termos de paz.

Importante lembrar que Obama foi eleito em franca oposição ao ex-presidente norte americano George Bush, possuidor de altíssimos índices de rejeição interna e externa. A grande expectativa mundial com relação a Barack Obama decorre justamente da rejeição às políticas belicistas e unilaterais do ex-presidente George Bush. Obama estabeleceu um clima mais ameno na política internacional, substituindo as decisões unilaterais de Bush pelo diálogo e pela diplomacia.

Mas se externamente a imagem do presidente Obama reforça-se a cada dia, o mesmo não se pode dizer do panorama interno. A população americana aguarda um rápido retorno aos patamares pré-crise de crédito que assolou o país e desaqueceu a economia. E já se percebe que isso não será possível de imediato.

Uma maré de ceticismo já encobre grande parte da orla de confiança depositada em Obama. As fortes injeções de recursos na economia americana geraram um grande déficit a ser administrado. As políticas de incentivos fiscais para reavivar a economia e gerar empregos podem retrair a arrecadação pública comprometendo investimentos em áreas sociais. A crise ainda espreita, embora seus efeitos tenham recuado momentaneamente.

O presidente também precisa enfrentar outras questões pontuais. Internamente, a problemática racial, dos imigrantes e de políticas para a juventude, todos grandes pilares de sustentação da eleição de Obama. Externamente, ainda se aguarda dos EUA um posicionamento mais efetivo quanto à questão ambiental. A proposição para reduzir a emissão de gases poluentes apresentada na Convenção das Nações Unidas em Copenhague mostra-se irrisória. Praticamente repetiu-se a atuação nula dos americanos frente ao Protocolo de Kyoto. E qualquer proposta ambiental mais consistente poderá gerar restrições ao parque industrial norte-americano.

O Prêmio Nobel da Paz talvez simbolize bem mais um incentivo aos desafios a serem enfrentados por Obama do que propriamente a coroação de méritos pacifistas. A premiação converteu o presidente americano em depositário das expectativas mundiais. Que o troféu não se transforme em mais uma estatueta empoeirada pela nuvem de esquecimento da história.

Leandro Cardoso Lages
Advogado e mestrando em Direito Internacional Econômico
leandrolages@uol.com.br

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