21 de abril de 2018

Reportagem retrata a vida de batalhenses nos garimpos do Suriname

A nova edição da Revista Cidade Verde, nº 187, traz uma matéria especial sobre a vida de dois homens do município de Batalha que deixaram sua terra natal e aventuraram-se nos garimpos da República do Suriname, país pertencente a França, na divisa com o Amapá. Com o título “Sonho Dourado – Piauienses arriscam a vida em garimpos no Suriname”, o texto destaca a dura realidade vivenciada por estes batalhenses, que sonham encontrar ouro para melhorar suas condições de vida.

Confira a matéria escrita por Arlinda Monteiro:

Desde o século XVIII, a esperança de uma vida melhor e mais confortável tem levado muitos brasileiros a se ariscarem nos garimpos. Entre as tantas histórias famosas, estão a da Serra Pelada, no Pará, que teve sua ascensão na década de 1980, causando uma verdadeira riqueza a quem teve coragem de ir até elas. Há, inclusive, quem tenha saído dos limites do país para tentar acumular bens em outros garimpos, como nos países vizinhos: Suriname e Guiana Francesa. 


Luís Carlos da Silva - foto aquivo pessoal

Uma experiência, que segundo o piauiense Luís Carlos da Silva, 38 anos, é bem difícil viver. Ele e o amigo João Naldo Torres, 40 anos, saíram de Batalha com destino a Paramaribo, capital da República do Suriname, onde passaram uma temporada na busca pelo ouro.

“Meu tio sempre foi de garimpo. Quando acabou a exploração no Pará, ele foi para o Suriname e me chamou para trabalhar com ele. No final de 2016, aceitei o convite e fui, porque as coisas estavam muito difíceis aqui (Batalha), e eu vivo de fazer bicos”, lembra Luís Carlos.

Com o passaporte em mãos, os dois seguiram para Belém (Pará) de ônibus e, de lá, a viagem continuou de avião. “Entramos no Suriname de forma legal, com passaporte carimbado pela imigração. Também tomamos as vacinas que foram recomendadas”, conta João Naldo.

Para chegar às terras do garimpo não existem estradas. Os caminhos são abertos pelos garimpeiros à base do facão. Naldo conta que existem três formas de chegar à Vila Brasil, nome dado à localidade onde estiveram, liderada pelo tio de Luís Carlos. “Você pode ir de helicóptero, barco ou carro, mas é uma viagem longa e arriscada. Nós fomos de carro. Foram mais de quatro horas de viagem, passando por lamas, por regiões lisas e montanhas. Lá chove praticamente todo dia é muito complicado ir por via terrestre”.

João Naldo, que já foi professor de geografia e tinha um pequeno depósito de materiais de construção, decidiu ser garimpeiro por ansiar investir em seu negócio e dar uma vida mais tranquila para a mãe, de 82 anos. Mas o trabalho exaustivo só foi suportado por 11 meses. “A garimpagem começa às 6h da amanhã e segue noite adentro. Eu só descansava domingo à tarde. Onde estávamos, tinha uma área com um barracão que servia de cozinha e tinha outro para os garimpeiros dormirem, com banheiro abastecido por uma caixa d’água. Mas lá, onde a exploração acontece, não tinha conforto nenhum, era tudo improvisado. Como se trabalha muito com água, nem todo mundo usava luva, mas era obrigado a usar botas. Graças a Deus, não tive prejuízo nenhum na saúde e nem sofri acidente”, relata. 


Naldo conta ainda que a equipe em que trabalhava era composta por 22 homens, a maioria de nacionalidade brasileira, que se dividia entre exploração na montanha e no “baixão”. Os garimpeiros usam detector de metal e máquinas, com limite de profundidade, sendo que a maior parte do esforço é braçal. Quando o ouro é encontrado, é realizada a divisão dos valores na qual uma porcentagem vai para a exploração, outra parte, para o arrendador, e a terceira, para quem encontrou o ouro. “Para ganhar alguma coisa ainda tem que contar com a sorte. Às vezes, a pessoa passa seis meses procurando e não encontra nada. Mas aí, quando acha, rende um bom dinheiro. Todas as pedras saem do acampamento em um helicóptero, que vai para a cidade, seguindo direto pata um ourives. Ou deixa lá guardado, ou vende em dólar e manda o dinheiro para o país de origem”, explica o garimpeiro. Segundo ele, não há roubos e nem confusões internas, mas é comum os acampamentos serem assaltados por gente de fora.

Já Luís Carlos não precisou se arriscar na exploração. Seu trabalho era na cozinha e na arrumação. Fazia de tudo um pouco. No entanto, dormiu muitos meses sob uma lona, no meio do mato. “No começo, sentia muito medo, mas depois a gente se acostumava”, relembra. Chegou a passar dois meses sem receber nada, mas o que ganhou, conseguiu voltar para o Piauí, comprar um carro e reformar a casa.

Pelo menos onde estavam, os dois relatam que não existe trabalho escravo, mas como o pagamento é feito por produção, o trabalho se torna muito exigente. No entanto, eles recordam ter ouvido histórias de que ainda existe tal situação em outros acampamentos. “Na Guiana Francesa, por exemplo, a exploração não é legalizada e muita gente se arrisca indo pra lá, sofrendo de tudo”, conta Luís Carlos.

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